Voto sobre o segundo turno de 2026, as chapas concorrentes e a necessidade de ajuste fiscal

Caros amigos e amigas,

Manifesto-me como cidadão que milita dioturnamente na Advocacia e na Universidade, no uso e gozo das atribuições inerentes ao múnus público da atividade essencial ao funcionamento do Estado. Deste modo, integro o campo democrático e republicano e procuro examinar as candidaturas com plena liberdade, em um esforço consciente e permanente para não me deixar capturar pelos extremos de uma polarização estéril. É a partir dessa posição, que este voto avalia qual das duas chapas reúne melhores condições de governar o Brasil no período de 2027 a 2030.

Isto posto, parto da premissa que a Direita é a grande vencedora do Pleito Nacional de 2026, independente do resultado do segundo turno. Assim, falemos do primeiro turno: com todas as seções totalizadas, Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos válidos e Lula, 45,16%, diferença de 1,87 ponto percentual, em eleição que registrou abstenção de 21,08%, a maior desde 1998.¹ ² O resultado não autoriza soberba a nenhuma das partes e fixa o critério do exame, o mesmo que adotei na análise anterior: mais do que a superioridade abstrata de programas, importa a capacidade de governar sob condições adversas, entre elas a fragmentação partidária, a dominância fiscal e a tensão entre os Poderes, em um quadro de crise institucional do Poder Judiciário e desfuncão estrutura; do Legislativo com a predominância das emendas parlamentares oriundas do Governo Temer .³ Sobre esse critério assentam quatro premissas que passo a breve reflexão: a ausência de debate sobre os problemas estruturais do país, que reclama controles republicanos sobre o sistema partidário; a qualidade da campanha da Direita, que não se converteu em candidatura presidencial à altura; o consenso quanto à necessidade de ajuste fiscal em 2027; e a conveniência de um Executivo capaz de operar num ambiente institucional já pressionado.

A primeira premissa é institucional. A campanha transcorreu sem enfrentamento sério dos problemas estruturais (trajetória da dívida, rigidez do orçamento, envelhecimento populacional, segurança pública, morosidade e crise institucional da Justiça), e isso importa menos como queixa de estilo do que como questão republicana. O sistema é custeado com dinheiro público em escala bilionária: o Fundo Especial de Financiamento de Campanha somou R$ 4,9 bilhões em 2026, repartidos entre 30 partidos,⁴ sem que se exija, em contrapartida, verificação objetiva do que cada legenda entrega à sociedade em projetos e candidaturas. Liberdade política com esse custeio comporta controle proporcional. Defende-se, para tanto, um regime de compliance partidário instituído em lei, com critérios mensuráveis de transparência, integridade, prestação de contas por programa e metas públicas, e com poderes correspondentes ampliados para a Justiça Eleitoral, resguardada a autonomia partidária que o art. 17, § 1º, da Constituição assegura.⁵ É reforma de legislatura, não de gabinete: vale para quem vencer e para quem perder.

A segunda premissa, a necessidade do ajuste, está nos números e dispensa ideologia ou retórica de palanque. A dívida bruta do governo geral passou de 76,3% do PIB em dezembro de 2024 para 78,7% em dezembro de 2025⁶ e chegou a 82,9% em agosto de 2026 (R$ 11,1 trilhões),⁷ já acima dos 82,5% que a Instituição Fiscal Independente (IFI) projetava, em junho, para o fim deste ano.⁸ Em doze meses, o déficit nominal do setor público é de 9,48% do PIB; desse total, 8,86 pontos (R$ 1,18 trilhão) correspondem a juros, contra 7,61% um ano antes, e apenas 0,62 ponto ao déficit primário.⁷ Cerca de 93% do desequilíbrio nominal é, portanto, custo financeiro, e a Selic, ainda em 13,75% depois do quinto corte consecutivo, em um Copom que declara riscos “mais elevados que o usual”,⁹ não dá trégua ao serviço da dívida. Segundo a IFI, estabilizar a dívida exigiria superávit primário de 2,1% do PIB ao ano, patamar inalcançável antes de 2029 mesmo no cenário mais otimista; a instituição projeta dívida acima de 100% do PIB em 2032 e adverte que, sem mudança no perfil do gasto obrigatório (cerca de metade da despesa federal acompanha o salário mínimo), nenhuma regra fiscal conterá essa trajetória.⁸ O quadro obriga as duas candidaturas a responder onde, quanto e quando, e define sobre quem recai o ônus da prova ou quem é que vai pagar a conta.

A terceira premissa reconhece à Direita o que lhe é devido. Fez uma boa eleição onde o poder se distribui (casas legislativas federais, assembleias e governos estaduais), e a crítica que dirige ao desgaste natural de governos progressistas, com dificuldade de oferecer soluções novas a problemas antigos, é qualificada e correta. O erro grave foi cometido no ponto em que a oposição mais precisava acertar: a candidatura presidencial, que não apresentou a maturidade e o preparo que os desafios do país exigem, e o ajuste fiscal que lhe serve de bandeira, sem a base técnica que a aritmética reclama. O programa registrado no TSE não traz meta numérica de resultado primário; fala em uma “nova regra” para estabilizar a relação dívida/PIB sem indicar parâmetros.¹⁰ Os números que circulam vêm de relatos de bastidor e divergem entre si: ajuste de 1,5% a 2% do PIB,¹⁰ corte de “até R$ 250 bilhões”¹⁰ ¹¹ ou uma “PEC da Transição” de R$ 300 bilhões,¹² sem prazo definido. A própria campanha desautorizou o conteúdo atribuído a fontes anônimas e declarou que apenas dois interlocutores falam pelo programa econômico.¹²

Há mais: o conteúdo reportado contradiz o discurso. Segundo o Jornal Folha de S.Paulo, o corte de cerca de 2% do PIB incidiria sobre despesas obrigatórias (Previdência, BPC e pisos constitucionais de saúde e educação), com reajuste apenas pelo INPC, por meio de uma “Super PEC da Transição”;¹¹ o candidato, por sua vez, nega cortar benefícios sociais e diz que elevará aposentadorias acima da inflação.¹¹ As duas versões não convivem, e a IFI, ao indicar onde estão as “decisões fiscais difíceis” do próximo mandato (previdência, salários do funcionalismo e benefícios assistenciais),⁸ mostra que não há ajuste dessa ordem que não passe por elas. Um corte de R$ 250 bilhões equivale a cerca de 8,8% da despesa primária de R$ 2,83 trilhões prevista no orçamento de 2027,¹³ e a ele se somam promessas sem custo estimado nem compensação: redução de encargos sobre a folha, revisão do IOF, da tributação de dividendos e de tributos sobre a exportação de petróleo, e um programa de compra de carteiras inadimplentes com carência de seis meses a um ano.¹⁰ Por tocar em pisos e indexações constitucionais, o ajuste só se faz por emenda à Constituição, com três quintos dos votos em cada Casa, em dois turnos (CF, art. 60, § 2º),⁵ isto é, mediante uma negociação política que o plano não descreve. Ajuste sem base técnica não é austeridade, é incerteza, e incerteza, num país de Selic a 13,75%, custa juros. E custa muito.

O que o país exige, ao contrário, é experiência na execução de ajustes, e é nesse ponto que o quadro político de Geraldo Alckmin se distingue. Governou São Paulo por mais de uma década, em mandatos entre 2001 e 2018, e o fez em meio a crise econômica com as contas equilibradas: dados de 2017 registram salários, aposentadorias e pensões em dia, superávit primário de caixa de R$ 1,5 bilhão e reforma previdenciária estadual concluída em 2011.¹⁴ Corroborando a afirmação há o registra do preço desse equilíbrio (reajustes represados para parte do funcionalismo havia ao menos três anos, queda de 26% na capacidade de investimento, segundo o próprio governo estadual, e atraso em obras de mobilidade), e é essa contabilidade honesta de ganhos e custos que falta a quem promete cortar sem dizer quem paga. Cabe a ressalva de que a União não é o Estado de São Paulo: metade do gasto federal acompanha o salário mínimo, e o êxito paulista não se transpõe por decreto. Tampouco o programa de Lula está livre de crítica: a análise anterior já apontara sua omissão quanto à trajetória fiscal,³ e o orçamento de 2027 prevê superávit primário efetivo de apenas R$ 18,6 bilhões (0,13% do PIB); o centro da meta, de R$ 73,2 bilhões (0,5% do PIB), só é alcançado depois de excluídos R$ 64,7 bilhões de despesas,¹³ e os quatro gatilhos de contenção, estimados pelo próprio governo em R$ 18 bilhões, têm escala modesta diante do que a IFI considera necessário.⁸ ¹⁵

A quarta premissa fecha o raciocínio. Com a Direita institucionalmente forte no Legislativo e nos estados, a Presidência não é uma disputa entre o poder e a oposição, e sim a escolha do ponto de equilíbrio do sistema. Num ambiente em que a Câmara administra parcela crescente do orçamento por emendas (R$ 26,6 bilhões anuais) e em que o Judiciário atravessa crise própria, com 75,5 milhões de processos pendentes e cerca de 80% das decisões do STF em 2025 tomadas de forma monocrática (94.934 de 118.072),³ importa quem demonstre temperamento para negociar com os três Poderes sem converter divergência em confronto. minha análise anterior reconheceu que três das seis propostas de Flávio Bolsonaro para STF, CNJ e CNMP respondem a problemas reais, mas que as demais deslocariam poder de revisão para o bloco que controla parte do orçamento por emendas.³

Diante do exposto, ante a premência de um ajuste fiscal reconhecido como inevitável, de uma proposta oposicionista sem aritmética, sem maturidade e nem calendário, de um vice com histórico de execução e de uma conjuntura institucional que recomenda experiência — voto na chapa Luiz Inácio Lula da Silva e Geraldo Alckmin, na expectativa de que o futuro governo apresente, já na transição, meta numérica, cronograma e composição do ajuste.

Ao brasileiro que vier a ser escolhido pelas urnas, dirijo votos sinceros de que governe com equilíbrio, senso de justiça e espírito público. Que seja capaz de reunir brasileiras e brasileiros em torno de um horizonte comum, fortalecendo a democracia, preservando a solidez da República e conduzindo o desenvolvimento nacional sobre bases inclusivas.

Sob a graça e a bênção de Deus, este é o voto que submeto aos meus pares.

Robson Adami Campos é advogado e professor. Mestre e doutorando pela USP e especialista pela UNESP. Conselheiro do CSD da FECOMERCIOSP e autor do livro “Descobrindo Ignacio Rangel” editado pela Editora Appris (no prelo).

Referências

1. ELEIÇÕES 2026: com 100% das seções totalizadas, Flávio tem 47,03% […]. Portal de Prefeitura, 5 out. 2026. Disponível em: https://portaldeprefeitura.com.br/bastidores-da-politica/eleicoes-2026-com-100-das-secoes-totalizadas-flavio-tem-4703-e/633498/. Acesso em: 18 out. 2026. (Reprodução de dados do TSE; título truncado conforme o endereço.)

2. COMO o Brasil votou para presidente no 1º turno das eleições 2026. O Povo, 4 out. 2026. Disponível em: https://mais.opovo.com.br/reportagens-especiais/resultado-presidente-eleicoes-2026/2026/10/04/como-o-br-votou-para-presidente-no-1-turno-das-eleicoes-2026.html. Acesso em: 18 out. 2026.

3. CAMPOS, Robson Adami. O voto de 2026 e o lugar do Brasil na desordem global. Adami Campos, [S. l.], 28 set. 2026. Disponível em: https://adamicampos.com/2026/09/28/o-voto-de-2026-e-o-lugar-do-brasil-na-desordem-global/. Acesso em: 18 out. 2026.

4. FUNDO Eleitoral vai repassar quase R$ 5 bi a 30 partidos para campanhas em 2026. Agência Senado, Brasília, DF, 8 jun. 2026. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2026/06/08/fundo-eleitoral-vai-repassar-quase-r-5-bi-a-30-partidos-para-campanhas-em-2026. Acesso em: 18 out. 2026.

5. BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, [2026]. Arts. 17, § 1º, e 60, § 2º.

6. GARCIA, Nathalia. Dívida pública bruta do Brasil sobe e fecha 2025 em 78,7% do PIB, mostra BC. Bem Paraná, Curitiba, 30 jan. 2026. Disponível em: https://www.bemparana.com.br/noticias/economia/divida-publica-bruta-do-brasil-sobe-e-fecha-2025-em-787-do-pib-mostra-bc/. Acesso em: 18 out. 2026.

7. ROSSI, Bruna. Dívida bruta atinge 82,9% do PIB em agosto, diz Banco Central. Poder360, Brasília, DF, 30 set. 2026. Disponível em: https://www.poder360.com.br/poder-economia/divida-bruta-atinge-829-do-pib-em-agosto-diz-banco-central/. Acesso em: 18 out. 2026.

8. IFI: próximo presidente da República terá de enfrentar decisões fiscais difíceis. Agência Senado, Brasília, DF, 25 jun. 2026. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2026/06/25/ifi-proximo-presidente-da-republica-tera-de-enfrentar-decisoes-fiscais-dificeis. Acesso em: 18 out. 2026. (Sobre INSTITUIÇÃO FISCAL INDEPENDENTE. Relatório de Acompanhamento Fiscal, n. 113, 25 jun. 2026.)

9. COPOM (Banco Central) reduz Selic […] no quinto corte seguido. Portal de Prefeitura, 16 set. 2026. Disponível em: https://portaldeprefeitura.com.br/brasil/copom-banco-central-reduz-selic-ao-ano-no-quinto-corte-seguido/632269/. Acesso em: 18 out. 2026. (Título reconstruído a partir do endereço.)

10. O QUE muda na economia com Flávio? Veja as propostas apresentadas pelo candidato. InfoMoney, 13 out. 2026. Disponível em: https://www.infomoney.com.br/politica/o-que-muda-na-economia-com-flavio-veja-as-propostas-apresentadas-pelo-candidato/. Acesso em: 18 out. 2026.

11. LUCENA, André. Plano de ajuste fiscal de Flávio Bolsonaro prevê corte de 2% do PIB, diz jornal. InfoMoney, 8 out. 2026. Disponível em: https://www.infomoney.com.br/politica/plano-de-ajuste-fiscal-de-flavio-bolsonaro-preve-corte-de-2-do-pib-diz-jornal/. Acesso em: 18 out. 2026. (Informação originária da Folha de S.Paulo.)

12. JUNQUEIRA, Caio. Flávio planeja “PEC da Transição” com corte de gastos de R$ 300 bilhões. CNN Brasil, 25 set. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/caio-junqueira/eleicoes/flavio-planeja-pec-da-transicao-com-corte-de-gastos-de-r-300-bilhoes/. Acesso em: 18 out. 2026.

13. PLOA 2027 prevê superávit primário efetivo de R$ 18,6 bi. Acionista, 1 set. 2026. Disponível em: https://acionista.com.br/ploa-2027-preve-superavit-primario-efetivo-de-r-186-bi/. Acesso em: 18 out. 2026.

14. FERRAZ, Adriana; HOLANDA, Marianna. Em São Paulo, Alckmin equilibra contas, mas atrasa obras. Estado de Minas, Belo Horizonte, 10 dez. 2017 (originalmente publicado em O Estado de S. Paulo). Disponível em: https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2017/12/10/interna_politica,923511/em-sao-paulo-alckmin-equilibra-contas-mas-atrasa-obras.shtml. Acesso em: 18 out. 2026.

15. GOVERNO atribui desaceleração das despesas obrigatórias a quatro gatilhos. Diário do Grande ABC, Santo André, 1 set. 2026 (conteúdo da Agência Estado). Disponível em: https://www.dgabc.com.br/Noticia/4344505/governo-atribui-desaceleracao-das-despesas-obrigatorias-a-quatro-gatilhos. Acesso em: 18 out. 2026.