A pesquisa e o pesquisador – nota de estudo – SP, 30 de maio de 2024. Por Adami Campos

 

O ponto inicial para o desenvolvimento desta nota de estudo foi uma reflexão sobre minha atual prática pedagógica, cuja aplicação almeja provocar e estimular o gosto pelo estudo e elaboração do trabalho intelectual. Para atingir tal objetivo, o desenvolvimento psicopedagógico deve partir do estímulo ao direcionamento da vontade para aprender, jamais impelir o processo por obrigação ou medo.

Seguindo esse princípio, iniciamos por C. S. Lewis, escritor inglês, para quem ler constituía um dos seus prazeres supremos. Em sua autobiografia, Surprised by Joy: The Shape of My Early Life, o autor descreve sua rotina diária ideal para leitura e escrita das 9h da manhã às 13h da tarde, e novamente das 17h da tarde às 19h da noite – com pequenas pausas para uma refeição, uma caminhada ou uma xícara de chá. Além das seis horas de estudo diário, também usufruía de leituras mais leves durante as refeições ou à noite (p. 141-143) de sua biografia. (LEWIS, C. S. Como cultivar uma vida de leitura. Rio de Janeiro: Thomás Nelson Brasil, 2020, p. 09). Este é um exemplo de um escritor que viveu no período anterior à TV e à internet (nasceu em 1898), entretanto o hábito da leitura – apesar de todas as mudanças, boas e más, trazidas pelo avanço da tecnologia -, continua ainda hoje a gerar os mesmos benefícios, como inúmeros exemplos de escritores e autores que têm na leitura uma fonte de prazer e como isso afeta, entre muitos aspectos, suas tarefas e suas vidas, que são realizadas e desfrutadas com mais facilidade.

A partir daí, podemos aprofundar a reflexão sobre os benefícios da leitura em outras correlações. Considerando, por exemplo, a pesquisa. Se a pessoa cultiva o hábito de ler, ao iniciar uma pesquisa estará em vantagem, pois saberá se nortear quanto ao que buscar, e onde buscar. E, evidentemente, esta pesquisa resultará, para ela, em maior conhecimento sobre o assunto, além de enriquecer e desenvolver a redação e um estilo próprio.  A leitura, sem dúvida, auxilia no desenvolvimento de inúmeras capacidades.

As técnicas de pesquisa e redação, uma vez assimiladas, capacitarão o pesquisador a diferentes tipos de trabalho, pois, afinal, coletar informações, organizá-las de modo coerente e apresentá-las de maneira confiável e convincente são habilidades indispensáveis, sobretudo nesta época, apropriadamente denominada Era da Informação. Em pesquisa, quando conseguir administrar as partes, será possível administrar o todo, e estará pronto para iniciar novas pesquisas com confiança e competência.

Ao fazer sua pesquisa, é importante desenvolvê-la como se fosse um diálogo com outros pesquisadores cujos trabalhos serão consultados, e também com aqueles que irão ler seu trabalho. A pesquisa é um trabalho árduo, mas, como todo trabalho desafiador bem-feito, tanto o processo quanto os resultados trazem enorme satisfação pessoal. Além disso, as pesquisas e seus resultados são também atos sociais, que exigem uma reflexão constante sobre a relação de seu trabalho com os leitores e sobre sua responsabilidade, não apenas perante o tema e você mesmo, mas também perante eles, especialmente se acredita que o que tem a dizer é bastante importante para levar os leitores a repensar sua vida, ou mudá-la, de alguma forma, em consequência.

Para isso, vale a pena conhecer algumas características daqueles que se aventuram ao trabalho intelectual. “Pensar, rápido e Devagar” é um livro do psicólogo Daniel Kahneman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia, que explora a dualidade da mente humana em seu processo de tomada de decisões. A obra é uma síntese das pesquisas de Kahneman ao longo de décadas e apresenta dois sistemas distintos de pensamento: 1. Sistema 1 (Pensamento Rápido): automático, intuitivo e emocional; opera rapidamente e com pouco ou nenhum esforço consciente; baseia-se em heurísticas (atalhos mentais) e experiências passadas; é suscetível a vieses e erros, pois tende a pular para conclusões sem uma análise profunda. 2. Sistema 2 (Pensamento Devagar): É deliberativo, lógico e analítico; Requer esforço consciente e concentração; utiliza métodos racionais e sistemáticos para resolver problemas complexos; Atua como um filtro para corrigir erros do Sistema 1, porém é mais lento e consome mais energia mental. O livro explora diversos vieses cognitivos e ilusões que afetam a tomada de decisões, tais como o viés de confirmação, o efeito âncora, e a falácia do custo irrecuperável. Kahneman também discute a “teoria dos prospectos”, que descreve como as pessoas avaliam perdas e ganhos de maneira assimétrica, geralmente dando mais peso às perdas. Kahneman não apenas descreve os mecanismos mentais, mas também oferece insights sobre como melhorar a tomada de decisões ao reconhecer e mitigar os vieses cognitivos. O livro é uma leitura essencial para quem deseja entender a psicologia por trás das decisões humanas e como aplicar esse conhecimento em áreas como economia, negócios, e vida pessoal.

Além deste, outro a nos tomar atenção é o Nova Arte de pensar de Jean Guitton (1901-1999). Este autor foi um filósofo, escritor e teólogo francês, amplamente reconhecido por suas contribuições ao pensamento cristão e por seu envolvimento ativo no diálogo entre fé e razão. Nascido em Saint-Étienne, na França, Guitton teve uma carreira acadêmica e literária prolífica, marcada por seu profundo compromisso com o catolicismo. Jean Guitton estudou na École Normale Supérieure, uma das instituições mais prestigiosas de ensino superior na França, onde se especializou em filosofia. Ele foi aluno de grandes pensadores como Léon Brunschvicg e Émile Chartier (Alain). Sua dissertação de doutorado foi sobre o filósofo Plotino, o que evidenciou sua inclinação para o estudo dos clássicos e da filosofia antiga. Em sua carreira acadêmica, Guitton lecionou em várias universidades francesas, incluindo a Universidade de Estrasburgo e a Universidade de Paris (Sorbonne). Ele também foi membro da Académie Française, uma das mais altas honrarias intelectuais na França, ocupando a cadeira número 33. Escreveu mais de 50 livros ao longo de sua vida, abordando uma ampla gama de tópicos que incluíam filosofia, teologia, espiritualidade e literatura. Algumas de suas obras mais conhecidas incluem: “Le Temps et l’Éternité chez Plotin et Saint Augustin” (1933): Sua tese de doutorado, que analisa as concepções de tempo e eternidade em Plotino e Santo Agostinho; “Mon testament philosophique” (1997): Uma obra que sintetiza seu pensamento filosófico ao longo de sua vida; “Dialogues avec Paul VI” (1967): Um livro que documenta suas conversas com o Papa Paulo VI, evidenciando seu papel no diálogo entre a Igreja Católica e o mundo moderno. Jean Guitton era um católico devoto e seu trabalho frequentemente refletia sua fé. Ele foi o único leigo a ser convidado a participar do Concílio Vaticano II, um marco importante na história da Igreja Católica que buscou modernizar a prática e o pensamento católicos. Sua participação no Concílio é um testemunho de sua reputação e influência dentro da Igreja.

“Você notará sem dificuldade (e Platão jé disse, antes de nós) que essas duas faculdades ( a que assimila e julga e a fortemente imagética) correspondem duas famílias de espíritos. Uns têm a vocação a medida, o juízo, a ponderação, a precisão, a paciência –  são espíritos lentos, mas seguros; falta-lhes imaginação, e eles parecem banais ou pesados; sua inteligência precisa ser exercida sobre uma matéria que lhe é fornecida por outros. Cercam-se de dossiês ou, então, de conselheiros. Na ordem da ação, essa cabeças são sólidas; nas ciências também; são preciosas para os trabalhos de preparação ou de controle. Particularmente, em tudo que é economia, finança, confecção e tesouraria. É também em tudo o que é pedagogia e aprendizagem. Os outros, ao contrário, são dotados de um dom para criação, o que periga carregá-los para bem longe da realidade. Entretanto, se não houvesse seres desta espécie, estaríamos ainda arando a terra com charruas de bois, lendo a hora pela sombra, navegando sem orientação, e talvez nem a roda teria sido inventada… É preciso simular e forçar o impossível para transformar qualquer coisa. E sem esses espíritos, que dispõe do futuro com tanta facilidade, o presente, ao qual estamos ligados pelo hábito, continuaria eternamente a ser o que é. Poesia, a política, a arte da guerra, a indústria, tudo precisa de renovação. O ideal seria ter em si esses dois sujeitos, cultivar em si Dom Quixote e Sancho”. (GUITTON, Jean. Nova Arte de Pensar. Campinas: CEDET, [1946] 2024, p. 34-35).

Como já dito por Arquimedes: “Dê-me um ponto de apoio e erguerei o mundo!”, este que conhecia o poder do “método” chamado de alavanca. O que, de fato, é o método senão a aplicação da mente à matéria, a concentração das forças da inteligência sobre o problema a ser resolvido? Assim, o método nada mais é que uma ferramenta, que é a reunião de técnicas. O martelo a vapor de Lê Creusot não passa de um martelo aperfeiçoado, e a mais poderosa das máquinas a vapor não passa de um conjunto de de alavancas que aplica algumas leis elementares da mecânica. As ferramentas da indústria moderna, que nos oferecem um poder prodigioso sobre o mundo material, não passam de transformações das ferramentas elementares.

No que atina à metodologia, abordaremos Karl Larenz. Ele é especialmente conhecido por sua obra “Methodenlehre der Rechtswissenschaft” (Metodologia da Ciência do Direito), publicada pela primeira vez em 1960, que se tornou um trabalho de referência na metodologia jurídica na Alemanha. Nesta obra, Larenz discute a interpretação e aplicação das leis, bem como a importância da sistemática jurídica e da hermenêutica no direito. Suas teorias enfatizam a necessidade de compreender o direito dentro de seu contexto cultural e social. Além de sua contribuição metodológica, Larenz também escreveu extensivamente sobre direito civil, incluindo o direito dos contratos e a teoria geral das obrigações. Suas ideias influenciaram o desenvolvimento do Bürgerliches Gesetzbuch (Código Civil Alemão).

A metodologia de uma ciência é considerada como uma reflexão sobre a sua própria atividade, sendo que essa reflexão deve ser crítica e valorativa, contextualizada e integrada a outros conhecimentos e a outras ciências. Logo, devido à própria complexidade da ciência do Direito, a obra de Karl Larenz se reporta a outras ciências, como por exemplo, a história do Direito e a sociologia do Direito, para se abordar a parte dogmática e a apreciação judicial de casos concretos. Cada parte da produção científica, ou áreas da ciência, se utiliza de determinados métodos, modos de proceder, no sentido de obter respostas às questões por elas suscitadas. Quais são os métodos a que recorre a ciência do Direito? Por “Ciência do Direito” entende-se aquela ciência que se confronta com a solução de questões jurídicas no contexto e com base em um ordenamento jurídico determinado, historicamente constituído, ou seja, o que para o autor é tradicionalmente denominado Jurisprudência.

Nestes estudos aprenderemos como converter interesse por um assunto em um tópico, esse tópico em algumas boas perguntas e as respostas a essas perguntas na solução de um problema. Aprenderemos também a como criar um argumento que satisfaça o desejo dos leitores de saber por que deveriam aceitar suas afirmações. Assim como prever as objeções de leitores sensatos, mas céticos, e como qualificar adequadamente os argumentos. Como criar uma introdução que “venda” a importância do problema de sua pesquisa aos leitores. Como redigir conclusões que façam o leitor compreender não apenas a afirmação principal, mas também sua mais ampla importância. Como ler seu próprio texto da maneira como os outros o fariam, e assim saber melhor que pontos alterar e como. É importante lembrar que uma boa característica do autor é sempre pensar como os leitores leem. Pensar na receptividade do texto. Uma vez reunido o material, pesquisadores competentes não começam simplesmente a escrever, assim como construtores competentes não vão logo serrando a madeira. Eles planejam o tipo e a forma do produto que pretendem obter, um produto que exprima sua intenção de alcançar um determinado resultado e cujas partes todas sejam planejadas contribuindo para a obtenção deste resultado. O planejamento não é uma trilha estanque e fixa. Pode ser alterado devido às mudanças na pesquisa. O objetivo deste estudo é auxiliar a criar e seguir esse planejamento.