
O aspecto mais marcante da obra em questão é a sua origem. Ela não foi produzida inicialmente como um livro comercial, mas sim como uma tese acadêmica publicada em 1954. O contexto de sua criação é um dos episódios emblemáticos da história da academia brasileira. Caio Prado Júnior escreveu este trabalho com o objetivo de disputar uma das primeiras cátedras de Economia Política da História: a da tradicional Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP), no Largo São Francisco, que é de 1827. Dentre seus concorrentes na disputa acadêmica, dentre os sete candidatos, foi o jurista e economista conservador José Pinto Antunes. O ano era 1954. O mundo respirava os ares paranóicos da Guerra Fria e o anticomunismo ganhava muita força. Caio Prado Júnior, membro da elite paulistana, mas abertamente comunista, enfrentou uma resistência ideológica. A Faculdade de Direito da USP era um bastião conservador e não estava disposta a entregar uma de suas cadeiras mais importantes a um marxista declarado. Apesar do brilhantismo histórico, da erudição e da profundidade analítica da tese de Caio Prado, a congregação da faculdade aprovou em primeiro lugar o trabalho de José Pinto Antunes, chamado “A produção sob o regime da empresa: economia e direito”. Em tempo posterior ele se tornaria diretor da FDUSP. Caio Prado não foi indicado para a cadeira. Obteve uma reprovação e quatro aprovações e perdeu a cátedra. O resultado foi, e ainda é, amplamente reconhecido como uma retaliação estritamente ideológica, um reflexo do clima macartista da época, escanteando o rigor científico em prol da conveniência da baixa política. O tempo, no entanto, encarregou-se de dar o veredito final. Enquanto o trabalho do vencedor Pinto Antunes caiu no esquecimento prático fora de nichos muito específicos, a tese derrotada de Caio Prado Júnior foi publicada em formato de livro e converteu-se em um clássico absoluto. É uma obra fundamental para qualquer pessoa que queira entender as bases do capitalismo periférico e as raízes do subdesenvolvimento brasileiro. Em tempo oportuno nos chega a reedição, com uma baita introdução do atual titular da cátedra, professor Gilberto Bercovici (FDUSP) e do professor Alexandre de Freitas Barbosa (IEB-USP).
Segue nota escrita por Lincoln Secco: “As diretrizes para uma política econômica de Caio Prado Jr.” – “O Brasil não é um país subdesenvolvido, como se estivesse destinado a superar uma fase de atraso. Em vez de uma única linha que progride num mesmo sentido e pressupõe um desenvolvimento necessário, Caio Prado Júnior revela uma totalidade contraditória em que os processos históricos se desenrolam em sentidos opostos: crescimento e deterioração se combinam. Se fizermos um corte na curva de crescimento da economia brasileira, veremos em qualquer época diferentes ciclos superpostos, uns em plena juventude, outros maduros e alguns decadentes. Tais formas capitalistas mostram-se assim porque elas não expressam a economia nacional. Vêm por cima e de fora. Segundo o autor, disso resulta uma feitoria comercial disfarçada em sociedade, afinal os europeus vinham aqui erguer uma empresa e não um país. Caio Prado Júnior defende “um ponto de vista que seja nosso” em Economia e que nos dê uma visão de totalidade; e esse ponto de vista é o da História. A Teoria do Desenvolvimento, embora apresentasse premissas históricas, não recuava o suficiente no tempo. Nosso autor propõe uma epistemologia adequada ao Brasil e rejeita com vigor as teses racistas, o fatalismo geográfico e o dualismo. Para o autor, os dados não existem fora da História. Na década de 50, a indústria voltada ao mercado interno, cuja produção superava o total das exportações, parecia acabar com o sentido da colonialidade, mas o crescimento industrial continuava dependente de divisas obtidas com a exportação de gêneros tropicais e sofria os abalos da balança de pagamentos. Caio Prado dizia isso quando muitos estavam embriagados pelo desenvolvimento associado ao capital estrangeiro. Hoje, aquele crescimento deixou atrás de si ruínas ambientais e humanas e um país que permanece dependente da exportação de commodities. Este livro, cuja primeira edição foi publicada na ditadura, ainda encontrará o seu lugar na estante de cada Boitempo: é um dos clássicos da nossa História Econômica”.