A relevância histórica da ISEB

Casarão no bairro de Botafogo no Rio de Janeiro

“Não tivemos filósofos que desempenhassem o que seria o seu papel natural, o de sugerir aos diferentes especialistas, críticos dos fatos, artistas e reformadores de instituições, a superação dos seus próprios campos de pensamento ou de ação, e a formulação de problemas nacionais no âmbito de uma formação histórica de conjunto. E porque não tivemos filósofos que não nos ensinassem a pensar em têrmos de universalidade, ficamos cantonados em uma compreensão de nós mesmos, a partir de ângulos parciais, embora às vêzes amplos e ricos, como na obra de alguns sociólogos. Faltou, porém, ao Brasil para entender-se a si mesmo, aquilo que Leibniz chamava de ponto de vista do infinito. Nosso ponto de vista sempre foi o do finito, ou porque o observador não se interessava senão por um aspecto parcialidade nossa realidade, e nele esgotava a sua capacidade de análise e compreensão, ou porque, – e isto é muito grave – mesmo quando tentava abranger o conjunto da realidade brasileira no espaço mundial e no tempo histórico, o fazia segundo a simples e elementar perspectiva das correlações geográficas e da história meramente descritiva. Faltou o instrumento conceitual indispensável, que só uma compreensão filosófica poderia ter proporcionado, permitindo transcender o plano em que se situavam e ultrapassar o finítimo da visão”. (Álvaro Vieira Pinto, ISEB, 1956, p. 11-12). 

O Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), criado em 1955, desempenhou um papel crucial na história do pensamento social e político do Brasil na segunda metade do século XX. Sua importância histórica reside não somente no debate teórico que promoveu, mas também na influência que exerceu sobre as políticas públicas e na formação de uma consciência crítica sobre o desenvolvimento nacional. O ISEB surgiu em um contexto de profundas transformações sociais, econômicas e políticas, caracterizado pela industrialização acelerada, pela urbanização crescente e pela busca de um projeto de nação que superasse os desafios do subdesenvolvimento.

Curiosa é sua criação. Trata-se de um processo em que intelectuais foram integrados ao Estado Brasileiro. Em 1952, no Plano Vargas, elaborado pelos Boêmios Cívicos em conjunto com a assessoria econômica (documento inédito que recuperei em minha pesquisa), estava prevista a criação de um instituto para a formação de quadros altamente qualificados para funções de Estado. Neste exato momento, o grupo de Itatiaia já estava produzindo regularmente e, posteriormente, o IBESP. Quase todos os seus membros passaram a integrar o instituto criado junto ao Ministério da Educação e Cultura.

Um dos aspectos mais relevantes do ISEB foi sua abordagem interdisciplinar, que contou com intelectuais de diversas áreas, como sociologia, economia, filosofia e ciência política. Figuras como Hélio Jaguaribe, Roland Corbisier, Álvaro Vieira Pinto, e Guerreiro Ramos foram alguns dos pensadores que integraram o instituto e contribuíram para a elaboração de uma teoria crítica sobre o Brasil. O ISEB buscou compreender as raízes do subdesenvolvimento brasileiro e propor caminhos para superá-lo, enfatizando a necessidade de uma industrialização autônoma, da reforma agrária e da democratização do acesso à educação e à cultura.

A produção intelectual do ISEB foi marcada pelo conceito de “nacional-desenvolvimentismo”, que defendia a ideia de que o desenvolvimento econômico do Brasil deveria ser conduzido soberanamente, sem a dependência de interesses estrangeiros. Essa perspectiva teve um impacto direto nas políticas públicas do governo de Juscelino Kubitschek (1956–1961), especialmente no Plano de Metas, que priorizou a industrialização e a modernização da infraestrutura do país. O ISEB também criticou o imperialismo e o colonialismo cultural, defendendo a valorização da cultura nacional e a construção de uma identidade brasileira autêntica.

Além de seu impacto nas políticas públicas, o ISEB teve um papel importante na formação de uma geração de intelectuais e líderes políticos comprometidos com a transformação social. Suas publicações, seus seminários e debates contribuíram para a disseminação de ideias progressistas e para a crítica ao conservadorismo e ao elitismo que permeavam a sociedade brasileira. O instituto tornou-se um espaço de reflexão e de ação, onde se discutiam não somente os problemas do Brasil, mas também os desafios enfrentados por outros países que almejam o desenvolvimento.

No entanto, o ISEB também enfrentou críticas e desafios. Sua visão desenvolvimentista foi questionada por setores da esquerda, que consideravam que o instituto subestimava as contradições de classe e a necessidade de uma revolução socialista; assim como por setores de direita que defendiam uma visão liberal idealista. Além disso, o golpe militar de 1964 representou um duro golpe para o ISEB, que foi fechado pelo regime autoritário pelo AI2. A sede, que ficava neste prédio registrado na foto que tirei, foi invadida e seus arquivos e biblioteca destruídos. Muitos de seus integrantes foram perseguidos, exilados ou silenciados, e o legado do instituto foi, na maioria, marginalizado durante os anos de ditadura.

Apesar disso, a importância histórica do ISEB permanece viva. Ele representou um esforço pioneiro de pensar o Brasil a partir de suas próprias realidades e desafios, rejeitando modelos importados e buscando soluções autóctones para os problemas nacionais. Sua ênfase na soberania, na justiça social e na valorização da cultura brasileira continua a inspirar debates contemporâneos sobre desenvolvimento, democracia e identidade nacional. 

O ISEB foi, sem dúvida, uma das mais importantes experiências intelectuais do Brasil, cujo legado nos convida a refletir sobre o passado e a construir um futuro mais justo.

Publicado por Adami Campos

Adami Campos é Advogado e Professor.

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