“O que se deve exigir do escritor antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço. Um notável crítico na França, analisando há tempos um escritor escocês, Masson, com muito acerto dizia que do mesmo modo que se podia ser bretão sem falar sempre do tojo, assim Masson era bem escocês, sem dizer palavra do cardo, e explicava o dito acrescentando que havia nele um socorrismo interior; diverso e melhor do que se fora apenas superficial”.
Machado de Assis (2015, p. 1179).
Indagado por uma pessoa que prezo por qual razão escreveria eu, além dos motivos próprios ligados ao de trabalhar com a escrita como um advogado e como curioso pelos saberes, pois são partes próprias a quem se dedica a tais ofícios, não me houve outra alternativa a não ser a de meditar sobre pergunta tão aguda. Até sim, pareceria algo simples, com uma resposta de bate pronto, sem maiores esforços para compreender ou mesmo se compreender.
Entretanto, a escrita é colocar para fora que somos. Aquilo que pulula na mente e por algumas vezes não se é dito. Ernest Hemingway mencionou certa vez que aquele que escreve deve falar pouco para lançar às palavras aquilo que pensa. Escrever é por em linhas e frases as batidas do coração. Talvez ganhe uma conotação poética esta afirmação, mas ao que parece, na realidade, ao menos a minha, é um pouco isso. Em verdade, tem muito disso. Não me entendo escrevendo para simplesmente expor ideias sem conexão comigo, ou, ao menos, ser um instrumento para uma outra finalidade. O poder da palavra não é pequeno, e sendo-o assim, carece de cuidados e respeito. Entretanto, é um voo livre em imenso céu de ideias e vida pura que servem para dizer o que muitas vezes não é dito.
Minha escrita é cotidiana. Seja no caderno, na arte de advogar, ou mesmo, no esforço de se tornar um escrevinhador. Nisso até pareço Jorge Amado que mencionava que não escrevia esperando algo em troca, seja fama, reconhecimento ou qualquer outra coisa. Escrevia, pois era um tesão danado. E é mesmo! Escrever é mostrar o que é, mesmo tentando demonstrar ser outra coisa, ou dizendo de forma diferente. A comunicação é integrativa! Une de forma contundente o que aparentemente não se aproximaria. Dependendo do seu uso pode até cindir, mas de fato influencia. E de maneira gostosa e fugaz.
Em resposta simples, digo a esta pessoa que tenho especial apreço, que a razão de escrever é que se trata de um sentimento que faz parte de mim, é para se comunicar e passar uma mensagem ou alguma mensagem. Não, apenas, do que gostaria que a escrita a fizesse. Essa pergunta partiu de uma leitura conjunta de uma bela crônica de Rubem Braga. E que texto! Nele, Braga, almejava que sua escrita provocasse mudança na vida das pessoas. Na real, eu não espero nada disso, mas permaneço cônscio que é bem isso que a escrita faz. Dizem que o silêncio é ouro; se assim o for, a boa escrita é pérola. Que, por mais valorosa que possa ser, invariavelmente, brotam de ostras.
Escrevo porque gosto, e muito.
Robson Adami Campos é advogado e professor. Mestre em Estudos Brasileiros pela USP e especialista em Ciência Política pela UNESP. E-mail: adamicampos@alumni.usp.br
Publicado na página http://www.adamicampos.com em 19 de maio de 2023.
Excelente texto, Rob!
Tomo a liberdade de deixar uma citação que amo de um dos meus escritores favoritos como inspiração :
“Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim como corpos tocáveis.”
F. Pessoa
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