Adami Campos*
A primeira qualidade desta aplicação, no exercício de se interpretar o Brasil, está na fixação de uma premissa que parece um dos pontos altos do pensamento rangeliano: ao estabelecer uma compreensão que parte da dinâmica do capitalismo mundial associado aos ciclos econômicos de longa duração, assim como os de média duração internalizados pela industrialização, agrega elementos dinâmicos à forma de analisar e interpretar. Pois, assim, não se reflete sobre o Brasil como uma extensão do capitalismo mercantil, como uma forma eminentemente estanque, ou como um fato posto. Em Rangel, essa compreensão é dinâmica e contínua, analisando os influxos que o introjetar de novas tecnologias no sistema produtivo provocam, de que maneira essas influências ocorrem, e posteriormente, a forma que esse dinamismo imprime nas forças produtivas no Brasil. Este elemento do método faz o intérprete exercitar seu ofício sempre olhando “de fora para dentro”, ou seja, de forma imanente, e sem tratar de maneira explícita, Rangel carregava elementos de compreensão da geopolítica em sua análise. Ou seja, a dinâmica do capitalismo mundial operava e influenciava – assim como ainda o faz -, o processo socioeconômico brasileiro. Além disso, segundo Guerreiro Ramos, após assimilar os influxos do centro do capitalismo, Rangel fixa uma lei (e não uma teoria), do processo histórico nacional. O termo lei em ciência é muito robusto para ser aplicado assim, porém aqui revela, em verdade, que se trata de uma teoria de ampla abrangência e historicidade, haja vista sua inerente interdisciplinaridade.
*Robson Adami Campos é advogado e professor. Mestre em Estudos Brasileiros (IEB-USP) e especialista em Ciência Política (UNESP). E-mail: adamicampos@alumni.usp.br. Publicado na página www.adamicampos.com em 29 de abril de 2023.